Como gravar o canto das aves
Quase todas as identificações falhadas são um problema de gravação, não do modelo. A boa notícia é que as soluções são simples, gratuitas e funcionam com o telemóvel que já tens no bolso.
1. Antes de mais, chega-te mais perto
Este é o guia inteiro numa frase. O microfone de um telemóvel é pequeno, capta de todas as direções e foi pensado para uma cara a uns trinta centímetros. Cada metro que te aproximas vale mais do que qualquer definição, app ou acessório.
Move-te devagar, para quando a ave parar e aproveita a vegetação para te esconderes. Reduzir a distância para metade multiplica aproximadamente por quatro a energia sonora que chega ao microfone – muitas vezes a diferença entre um palpite de confiança Baixa e uma resposta de confiança Alta. Se não conseguires aproximar-te sem assustar a ave, fica onde estás e grava na mesma: um excerto distante que tens vale mais do que um próximo que afugentaste.
2. Sabe onde fica o microfone e aponta-o bem
A maioria dos telemóveis tem vários microfones, e o que é usado para gravar fica normalmente na aresta de baixo, junto à porta de carregamento. Descobre o teu – grava-te a dar pequenas pancadas junto a cada um e vê qual soa mais alto – e aponta essa aresta para a ave, em vez de segurares o telemóvel na horizontal como uma câmara.
- Mantém os dedos, capas e fitas longe do orifício do microfone.
- A mão livre em concha atrás do telemóvel faz de refletor improvisado e ajuda mesmo.
- Se estiveres a filmar por causa do som, lembra-te de que a câmara e o microfone não apontam para o mesmo lado.
3. O vento é o inimigo número um
O ar a passar por um microfone desprotegido produz um ronco grave que fica mesmo em cima das frequências de que precisas. Não é ruído de fundo que se filtre depois – é forte o suficiente para saturar a gravação por completo.
- Põe algo sólido entre o vento e o telemóvel: uma sebe, um muro, um tronco, o lado abrigado de um edifício.
- Faz do teu corpo um corta-vento. Fica de costas para o vento e grava na bolsa de ar parado à tua frente.
- Uma meia, um punho de polar ou um pedaço de tecido macio solto sobre o microfone é um protetor de vento improvisado bastante razoável. Solto e fofo é o objetivo – apertado contra o orifício, abafa também a ave.
- Num dia de muito vento, vai para um sítio abrigado e aceita uma ave mais distante. Abrigado e longe costuma ser melhor do que exposto e perto.
O BirdAmp combate o vento por ti, nas duas pontas do processo. Antes de um excerto ser identificado, passa por um filtro passa-alto de 100 Hz, que retira a maior parte do ronco do vento e do trânsito e não toca no canto das aves – quase todo acima de 500 Hz. Depois, quando amplificas uma deteção, a separação ressintetiza só essa espécie, e tudo o que não foi reconhecido como essa ave, incluindo o vento, vai para o canal de fundo. É o controlo de fundo que baixas para empurrar o vento para trás.
Isto é recuperação, não imunidade. O filtro retira o ronco que está por baixo da ave; não consegue inventar uma ave que o vento já enterrou. Se a rajada e o canto chegam juntos ao microfone e a rajada ganha, não sobra nada no ficheiro para separar.
4. Dez a trinta segundos valem mais do que três minutos
Um excerto curto em que a ave canta com clareza duas ou três vezes é muito mais útil do que um longo em que canta uma vez no início e um cão ladra o resto do tempo. O modelo trabalha em janelas curtas e compara-as entre si, por isso o que quer são várias repetições limpas, não duração.
Se a ave estiver a cantar com regularidade, vinte segundos chegam bem. Se só chamar de vez em quando, continua a gravar nas pausas e corta depois – mas não envies cinco minutos de silêncio com um chamamento perdido lá no meio.
5. Fica quieto e não comentes
O ruído de manuseamento é o erro de que as pessoas menos se apercebem. Dedos a deslizar na capa, a manga do casaco a roçar o telemóvel, passos na gravilha – tudo isto está muito mais perto do microfone do que a ave, e tudo vai parar à gravação.
- Põe-te em posição e depois fica imóvel. Apoia os cotovelos no corpo em vez de segurares o telemóvel com o braço esticado.
- Não sussurres o nome da espécie para o excerto. A fala humana é alta, de banda larga e fica exatamente onde o modelo está a ouvir. Aponta-o depois.
- Espera dois ou três segundos depois de carregares em gravar antes de a ave cantar, e deixa uma pausa no fim. Cortar é fácil; recuperar uma primeira nota cortada não é.
- Um impermeável a restolhar é pior do que parece. Se puderes, segura o casaco com a mão livre.
6. Trânsito, aviões e chuva
Nem todo o ruído prejudica da mesma forma. Ruído constante e grave – trânsito distante, um gerador, uma autoestrada a um ou dois quilómetros – fica quase todo abaixo das frequências que a maioria dos passeriformes usa, e o modelo lida com ele melhor do que imaginas. Vale a pena gravar na mesma.
O problema é o ruído de banda larga. Um avião a passar, chuva forte, um rio em cheia ou vento forte em folhas secas espalham energia por todo o espetro e enterram a ave. Com um avião, basta esperar: trinta segundos de paciência dão um excerto muito melhor. Com chuva, procura abrigo – gravar de um alpendre ou de dentro do carro com a janela aberta funciona bem.
7. Sai à hora certa
As duas primeiras horas depois do amanhecer são as melhores do dia, e não só porque as aves cantam mais. O ar costuma estar parado, há pouco trânsito e o som chega mais longe no ar fresco e estável logo a seguir ao nascer do sol. A mesma espécie que às quatro da tarde é uma mancha de confiança Baixa passa a ser uma resposta de confiança Alta às seis da manhã.
- Na primavera, durante a época de reprodução, o canto é mais frequente e mais completo.
- Manhãs paradas e encobertas são melhores do que manhãs claras e com vento.
- O fim do dia é uma boa segunda opção, sobretudo para mochos e corujas, limícolas e bandos a caminho do dormitório.
- Fora da época de reprodução as aves continuam a chamar, mesmo sem cantar – os chamamentos curtos de contacto são mais difíceis, mas perfeitamente identificáveis numa gravação próxima e limpa.
8. Notas por telemóvel
Se gravares diretamente no BirdAmp, a app trata das definições. Se usares outra app e carregares o ficheiro depois, há algumas coisas que vale a pena saber.
- No iPhone, os Memorandos de voz aplicam uma redução de ruído pensada para voz, que pode estragar cantos agudos e baixinhos. Desativar a opção de melhorar a gravação, quando a tua versão a tiver, dá mais material ao modelo.
- No Android, as apps de gravação variam imenso. Prefere uma que guarde sem compressão ou com uma taxa de bits alta, e evita tudo o que anuncie isolamento de voz ou supressão automática de ruído.
- O controlo automático de ganho tem dois lados. Levanta uma ave fraca, mas também o ruído de fundo entre as frases. Na maioria dos telemóveis não há nada a fazer – sabe apenas que uma gravação com chiado e a "bombear" é do telemóvel, não da ave.
- O vídeo é uma fonte perfeitamente válida. A faixa de áudio de um vídeo que filmaste pode ser carregada e analisada como qualquer gravação.
9. O que carregar
O BirdAmp aceita os formatos de áudio comuns de um telemóvel ou gravador – WAV, MP3, M4A, AAC, FLAC, OGG – e o áudio de um ficheiro de vídeo. WAV ou FLAC sem compressão preservam mais pormenor, mas um bom M4A de telemóvel serve perfeitamente.
- Não convertas um ficheiro comprimido noutro formato comprimido. Cada conversão deita fora mais dos pormenores agudos e subtis de que a identificação depende.
- Evita apps de mensagens para transferir. A maioria comprime muito o áudio e algumas reduzem-no a qualidade de chamada. Usa uma transferência de ficheiros, uma pasta na nuvem ou um cabo.
- Se cortares uma gravação longa, deixa alguns segundos antes e depois do canto em vez de cortares rente à primeira e à última nota.
A lista rápida
Quando há uma ave a cantar e não há tempo para pensar:
- Chega-te mais perto.
- Aponta a aresta de baixo do telemóvel para a ave.
- Fica de costas para o vento ou procura abrigo.
- Carrega em gravar e depois fica quieto e calado.
- Dá-lhe vinte segundos e duas ou três repetições claras.
- Ouve um instante para confirmar que é a ave e não ronco.